Lembranças dos anos 70, que época incrível.


História enviada por: gustavo beraldo, em 2016/05/05

Nos idos dos anos 70, em pleno cerrado do planalto central, quando não havia a facilidade de deslocamento dentro do país como nos dias atuais, lembro perfeitamente, ainda que em tenra idade, que escutávamos, por vezes na televisão e, na maioria das vezes, no rádio, nossa paixão maior: o futebol e os seus responsáveis diretos: muitos ótimos, alguns craques, outros brilhantes, poucos, porém, heróis.

Tão sublimes heróis que, por vezes, ofuscavam as tardes de glória de momentos ímpares de outros companheiros, pois já construíam sua estrada talhada não apenas pelo raro diferencial, mas, principalmente, pelas cores rubro-negras.

Aquele gol aos 44 minutos do segundo tempo, ainda mais numa final de campeonato, me chamou tanto a atenção, não apenas a definitivamente não pensar em outro time, para desgosto do pai botafoguense, mas daquele que cobrou o “corner”, que fez a bola cruzar a extensa área, passar milímetros pelas cabeleiras saltitantes de todos os defensores vascaínos e acertar, na geometria exata do restrito espaço disputado a cada gota de suor, a cabeçada de Rondinelli… Sim, ele virou o “Deus da Raça”, mas quem em verdade construía mais um pedacinho da sua história era Zico, que se tornaria o “Deus do Maraca”, da cidade maravilhosa e de uma nação inteira, sem fronteiras, sem idade, sem raça, sem qualquer preconceito ou divisão.

Mesmo neste estupendo momento, era em Zico que eu prestava atenção e, após o apito final, dele eu queria ouvir as palavras aos ofegantes repórteres em campo… Pois era uma das raras vezes em que um “coadjuvante” se tornara tão ou mais importante que o “principal”… Ou seria o contrário?

Por vezes, com base no rádio tentávamos imaginar ou simular, eu e o meu também infante amigo Osmar, o que o narrador esforçava em ilustrar, principalmente quando, estupefato, berrava a plenos pulmões que “o companheiro não compreendeu o passe de Zico”… A genialidade e a maestria não poderiam ser melhor definidas. Tentávamos repetidas vezes no campinho torto e marcado por árvores, calçadas e meios fios, ou com nossos botões de vidrilha e galalite, reproduzir o que Zico fizera nos gramados pátrios ou pelo mundo. Muitas vezes eram vãs tentativas, pois mesmo com exaustivos ensaios e “pontos de vista”, nem nós compreendíamos a sua genialidade.

Demorei anos para vê-lo pessoalmente, mas o momento não poderia ser melhor: em pleno verão carioca, ao lado de um certo “médico que jogava muito” e ver o concreto do maior estádio do mundo tremer quando os rubro-negros despachavam os tricolores por quatro tentos, um deles de falta que não canso de rever e, confesso, ainda “não compreendi”, como Zico usou o pé (e não a mão) para colocar a bola no ângulo de Paulo Victor, que teve o privilégio único de vê-la entrar ao seu lado num relance de olhar.

Mesmo meus amigos tricolores, atleticanos mineiros, botafoguenses, vascaínos, palmeirenses gremistas, dentre outros, sabem que o Galinho, assim como para os rubro-negros, é um ícone eterno que perpassará multifárias gerações!

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